Preservação da Mangabeira

 “Coisa boa de comer”, esse é o significado na língua tupi-guarani para mangaba e, para todas e todos que a conhecem, faz todo sentido. Fruto da mangabeira, a mangaba é utilizada principalmente na culinária tendo uma grande variedade de produtos desde sucos, sorvetes, doces, compotas, trufas, geleia, etc. Pode também ser utilizada também para fins medicinais mas com cuidado (VIEIRA NETO et al., 2002).

            Segundo Vieira Neto (2002):

A mangabeira, (Hancornia speciosa Gomes), frutífera da família das apocináceas, é planta arbórea de porte médio, que atinge de 5 a 10 metros de altura. Nativa do Brasil, é encontrada vegetando espontaneamente em várias regiões do país, desde os Tabuleiros Costeiros e Baixadas Litorâneas do Nordeste, onde é mais abundante, até as áreas sob Cerrado da Região Centro- Oeste; verifica-se ainda sua ocorrência nas Regiões Norte e Sudeste.  (VIEIRA NETO et al., 2002, p. 3).           

Dados do IBGE de 2009 demonstram que existem 7 estados produtores de mangaba, sendo eles: Sergipe, Bahia, Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas, Minas Gerais e Maranhão. Dentre estes, Sergipe é o estado que detém a maior produção da mangaba atingindo mais da metade de toda produção. O extrativismo é a principal forma de exploração da mangaba, sendo realizado na  sua maioria por mulheres negras que vivem em comunidades litorâneas e que contribuem para o sustento das famílias. Esta atividade é importante para segurança alimentar e, juntamente com a  agricultura, criação de animais, o artesanato e outras atividades, formam a renda familiar.

      Diante da importância da mangabeira para milhares de mulheres em diversas comunidades do estado e como forma de proteção, ela foi decretada árvore símbolo de Sergipe em 20 de Janeiro de 1992 através do decreto de nº 12.723. Apesar de ser árvore símbolo do estado, as áreas de ocorrência da mangabeira sofrem sérias ameaças a sua sobrevivência diante do modelo de desenvolvimento econômico adotado, que possui na agricultura convencional e no turismo, através da especulação imobiliária, os maiores índices de destruição das áreas de restinga. Áreas essas que fazem parte de um ecossistema incrível no qual encontramos milhares de pés de mangaba, além de outras plantas e animais que são de fundamental importância para a sobrevivência de outras milhares de mulheres, de suas famílias e das comunidades em que vivem.

       É preciso refletir sobre as consequências da destruição de uma área da restinga para a implantação de viveiros de camarão; para o plantio da monocultura da cana ou do coco; para a construção de hotéis luxuosos ou para a construção de condomínios de veraneio. Quando isso acontece não é somente o ecossistema em si, plantas, animais e “dunas”, que estão sendo destruídos, mas estamos acabando principalmente com uma forma de sobrevivência e com toda uma cultura de milhares de mulheres e suas famílias que vivem, dependem e se relacionam com esse ecossistema.

      Segundo Castro, citado por Mota et al (2005), “ as populações tradicionais são produtoras de saberes e de formas de manejo a eles pertinente, essenciais na preservação da biodiversidade”. Podemos observar que as catadoras de mangaba construíram através de várias gerações uma relação harmoniosa com as mangabeiras e com a restinga, aproveitando o recurso que ambos disponibilizavam ao mesmo tempo que aprenderam como preservar e cuidar dessas plantas e desse ecossistema para que os mesmos não acabassem.

       Nessa relação, além da criação de toda uma cultura em torno das catadoras, das mangabeiras, da mangaba e da restinga, como exemplo a criação de músicas, de histórias, de receitas e etc, foi desenvolvido um sentimento de pertença e de ligação entre elas. E nesse caminhar muitos resultados foram colhidos, dentre os quais podemos citar o desenvolvimento de processos de manejo das mangabeiras para aproveitar os seus recursos e não destruí-las, pensando sempre nos cuidados com as plantas e na sua reprodução. Essas formas de manejos e técnicas desenvolvidas procuram, na maioria das vezes, serem o mais parecido possível com a forma natural, pois as catadoras entendem as mangabeiras como uma dádiva de Deus e por isso elas devem ser criadas na sua forma natural (MOTA e SANTOS, 2008)

     Quando as catadoras realizam o extrativismo da mangaba, esse é feito, na sua maioria, de forma coletiva procurando fortalecer os laços familiares e os laços de amizade que existem nas comunidades. Outra característica dessa atividade é que esta tem como objetivo contribuir na segurança alimentar e nutricional das famílias, bem como no complemento de sua renda. Além do que, é uma atividade que respeita os ciclos naturais procurando a conservação e a reprodução das mangabeiras e do seu ecossistema.

      A poucos anos a mangaba teve uma valorização no mercado e a procura por esse produto aumentou consideravelmente, sendo cada vez mais apreciada por consumidores. Diante disso, o extrativismo da mangaba aumentou bastante e começou a ser realizado por pessoas que não tinham o conhecimento das formas corretas de manejo da mangabeira, ocasionando a destruição de muitos pés. Com a valorização da mangaba muitos proprietários que disponibilizavam suas terras para que as catadoras entrassem e realizassem a coleta da mangaba, passaram a proibir a entrada destas ou a controlar essa entrada a partir de acordos. Dentre esses acordos temos a “meia”, onde o proprietário  disponibiliza as plantas para o extrativismo e as catadoras coletam o fruto, dividindo o total entre ambos, e o arrendamento, onde “a safra é comprada por um valor que é pago no final da colheita.” (SCHMITZ et al, 2009)

     Toda essa realidade vem cada vez mais enfraquecendo as catadoras de mangaba e as comunidades em que vivem, causando a destruição da sua cultura e o êxodo rural, levando jovens e famílias inteiras a tentar a vida na cidade grande. Deixando o campo ser tomado por grandes propriedades de terra com suas monoculturas e pela especulação imobiliária, com seus inúmeros condomínios, hotéis luxuosos e moradas de veraneio; reforçando cada vez mais uma sociedade excludente que beneficia poucos em detrimento do sofrimento da grande maioria.

       Por isso a importância das catadoras, que: afirmando um novo modelo de desenvolvimento, procura o beneficio do coletivo com uma preocupação no cuidado com o meio ambiente e com as futuras gerações.  

Referências Bibliográficas:

DECRETO N.º 12.723 DE 20 DE JANEIRO DE 1992

MOTA, D.M.; SANTOS, J.V. Uso e conservação dos remanecentes de mangabeira por populações extrativistas em Barra dos Coqueiros, Estado de Sergipe. Acta Sci. Human Soc. Sci. Maringá, v. 30, n. 2,  p. 173-180, 2008.

MOTA, D.M.; SILVA JÚNIOR, J.F.; SCHMITZ, H. Os catadores de mangaba e a conservação da biodiversidade no território Sul sergipano. In: Congresso Brasileiro de Economia e Sociologia Rural. 43, Ribeirão Preto, 2005, Anais, Brasília: SOBER, 2005.

            - Gestão coletiva de bens comuns no extrativismo da mangaba no nordeste do Brasil. Ambiente & Sociedade. Campinas, v. XII, n. 2, p. 273-292, jul.-dez. 2009.

RÊGO, José Fernandes do. Amazônia: do extrativismo ao neoextrativismo. Disponível em http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/extrativismo_neoextrativismo.pdf e capturado em 15/03/2011.

VIEIRA NETO, R.D.; CINTRA, F.L.D.; SILVA, A.L. da; SILVA JÚNIOR, J.F., COSTA, J.L. da S.; SILVA, A.A.G. da; CUENCA, M.A.G. Sistema de produção de mangaba para os tabuleiros costeiros e baixada litorânea. Aracaju: Embrapa Tabuleiros Costeiros, 2002. 22p. (Embrapa Tabuleiros Costeiros. Sistemas de Produção, 02). Disponível em http//www.cpatc.embrapa.br e capturado em 15/03/2011.

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