Mangaba

A mangaba pode ser encontrada do Norte até o Sudeste do Brasil. De origem indígena, a palavra mangaba (mã’gawa) significa, segundo Ferreira (1973), coisa boa de comer. Monachio (1945) lembra que o povo Guarani Paraguaio a chama de manga-icé e, os Tupis de tembiú-catu (Josué Silva Júnior e Ana Lédo, 2006).

Na História da Alimentação no Brasil, Camara Cascudo (2007, 642) afirma: Mangaba: Hancornia Speciosa Tul. “São frutos doces e agradáveis e que derretem na boca”.  Silva Júnior e Lédo (citando Monachio, 1945; Blossfeld, 1967; Pio Corrêa, 1969; Bahia, 1979), afirmam que existem, por todo o Brasil, outros nomes para este fruto e sua árvore. Pode-se encontrar: mangabeira, mangaíba, mangabiba, mangaúva, mangareíba, mangava, manguba, mangabera-agreste, mangabeira-brava, mangaba das caatingas, mangabinha-das-caatingas, mangabeira-do-norte, mangabeira-mansa, mangabeira-ovo, mangabeira-branca, mangabeira-vermelha, mangabeira de Goiás, mangabeira de Minas, tembiú. Tembiucatinga, e catu.

Em 1587, o português Gabriel Soares de Sousa descreveu a mangaba:

Na vizinhança do mar da Bahia se dão umas árvores nas campinas e terras fracas, que se chamam mangabeiras, que são do tamanho de pessegueiros... O fruto é amarelo, corado de vermelho, como pêssegos calvos, ao qual se chamam mangabas; que são tamanhas como ameixas e outras maiores, as quais em verde são todas cheias de leite, e colhem-se inchadas para amadurecerem em casa, o que fazem de um dia para o outro, porque se amadurecerem na árvore caem no chão. Essa fruta se come sem se deitar nada fora, como figo (...)cheira muito bem e tem suave sabor, pelo que é muito boa para os doentes de febres por ser muito leve. Quando estas mangabas não estão bem maduras travam na boca como as sôrvas verdes em Portugal, e quando estão inchadas são boas para conserva de açucar, que é muito medicinal e gostosa. (In Silva Júnior e Lédo)

Essa é uma das frutas mais ricas em ferro que se conhece, além de ser fonte de vitamina C. Segundo pesquisadores da Embrapa, quase toda sua produção é proveniente do extrativismo. Em Sergipe, maior produtor de mangaba do país, esse trabalho é realizado tradicionalmente por mulheres, que se revezam entre essa atividade e a pesca do siri, ostra, sururu, etc. A mangaba, por muitas vezes, significa a sobrevivênia de centenas de famílias. Hoje, as Catadoras de Mangaba estão cada vez caminhando mais e mais léguas, por entre areias escaldantes, e atravessando mais cercas, para terem acesso às mangabeiras e seus frutos.

A especulação imobiliária, a monocultura e a carcinicultura estão arrancando essas árvores do chão. Em muitos casos, afirma a pesquisadora da Universidade Federal de Sergipe, Sônia Meire de Jesus (2009), as árvores são arrancadas pela raiz.

Somente as Catadoras de Mangaba, conhecedoras seculares da rota da mangaba no Estado, conseguem enxergar os fantasmas das árvores deixados pelo modelo de desenvolvimento instalado no Estado.

Por último, mas não menos importante, a cata predatória do fruto e o corte da casca da árvore estão aniquilando as mangabeiras, que requerem cuidados especiais em seu manejo. “A mangabeira é como a mulher. Muito delicada, não se pode arrancar galhos, cortar de qualquer forma, senão ela morre”, lembra a Catadora do povoado Porteiras/Japaratuba, Jaqueline Santos.

Como não poderia deixar de ser, o sabor e o aroma da mangaba inspiraram inúmeros escritores e viajantes. Veja abaixo fragmentos colecionados no livro A Cultura da Mangaba, de Josué Silva Júnior e Ana da Silva Lêdo (2006).

Guimarães Rosa 

Na hora do Jantar, Maria Irma foi muito amável. Depois do doce – compota de MANGABAS de vez, em verde calda crassa – fitou-me com um olhar novo, quase prometedor.

(Fragmento do conto “Minha Gente”do livro Sagarana)

João Cabral de Melo Neto

É fruta de carne acesa, sempre em agraz,

como araçás, guabirabas, maracujás.

Também MANGABA,

Deixas em quem te conhece Visgo, borracha.

José de Alencar

Iracema saiu do banho; o aljôfar d’água a rareja, como  a doce MANGABA que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste. (Fragmento do romance Iracema)

José de Alencar

A esposa não desprende de si o filho, senão quando ele não chupa mais seu peito. Ela é como MANGABEIRA; nutre o fruto com seu leite , que é a flôr do seu sangue. (Fragmento do romance Ubirajara)

Leandro Gomes de Barros

Os nossos frutos são indígenas são cajú, maracuja, MANGABA, jaboticaba, pitomba, oiti, araçá,

o camboim, o pelucho, oiti-coró e ingá.

(Fragmento do poema em cordel O Recife)

Nino Karvan

Boca de auto-falante bem de longe se escuta, 

Com cesto na cabeça na praça ou na feira 

Anuncia a fruta:

Olha a MANGABA!!!

(Trecho da música Mangaba Madura)

Grupo Imbuaça 

Papai vai pra mangabeira

Papai vai pra mangabeira

Me leva que eu também vou

Me leva que eu também vou

Papai, apanhar MANGABA

Papai, apanhar MANGABA

E eu apanhar fulô

E eu apanhar fulô

Papai o senhor me dá

Papai o senhor me dá

Um vestido de cetim?

Menina pra que tu quer?

Menina pra que tu quer?

Pra brincar em Maruim

Papai o senhor me dá

Papai o senhor me dá

Um vestido de seda pura

Um vestido de seda pura?

Menina pra que tu quer?

Menina pra que tu quer?

Pra brincar lá na ibura

Pra brincar lá na ibura

(Do espetáculo "Teatro Chamado Cordel", 1982. Gravado no CD Nosso Palco é a Rua", de 1999)

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